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    Surgimento do MDMA no Brasil

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    Ehcsztein

    Mensagens : 36
    Data de inscrição : 04/08/2016

    Surgimento do MDMA no Brasil

    Mensagem por Ehcsztein em Sex 05 Ago 2016, 11:15

    No meio dos anos noventa começam a aparecer, aqui no Brasil, os boatos de uma nova droga sendo utilizada, principalmente nos grandes centros urbanos. Já no início do século XXI o ecstasy aparece cada vez mais na mídia, como a droga das raves, festas de música eletrônica com profusão de luzes e sons; fotos de pessoas abraçando-se, relatos de apreensões de centenas ou milhares de comprimidos, reportagens sobre dezenas de efeitos adversos. Seu surgimento e o seu uso cada vez mais popularizado podem surpreender o cidadão médio; o Brasil, um país de maconha e cocaína, vê esta novidade aparecer, primeiro parte de uma cultura clubber incipiente, espalhando-se, aos poucos, pela classe média brasileira.

    Mas o "cidadão médio" desconhece que o "ecstasy" tem uma longa história: aparece na Europa, antes da Grande Guerra, é redescoberto nos Estados Unidos, e volta para a Europa novamente, desta vez com uma cara bem diferente. O primeiro registro é a patente da companhia alemã Merck, em 1914; o MDMA fora sintetizado dois anos antes, na procura por uma substância com um bom efeito vaso-constritor. Pelo que parece, a proximidade da guerra e a sua aparente inutilidade fizeram com que esta droga fosse relegada a um esquecimento de mais de 30 anos; não consta, em sua patente, nenhuma informação sobre qualquer uso possível, a não ser como precursor para outros produtos mais utilizáveis.

    Como sempre surgiu, então, o exército americano na sua busca por quaisquer substâncias que pudessem ser de uso na recém-inventada "guerra fria". O MDMA, contudo, foi utilizado somente em animais; rhesus, porquinhos-da-índia, cachorros e ratos souberam melhor do que ninguém os efeitos, embora não o pudessem dizer. Houve, porém, experimentos humanos com o metabólito mais próximo do MDMA, o MDA, em "voluntários" do exército, inclusive com um caso de overdose.
    Depois da sua passagem incólume pelo exército, o MDMA começa a interessar os pesquisadores nas universidades e da indústria química americana. É neste momento que o MDMA conhece o seu "pai adotivo", Alexander Shulgin.

    Um químico da Dow Chemicals, ele cria um inseticida muito lucrativo; como recompensa, a Dow dá carta branca para que ele utilize a infra-estrutura para pesquisar o que quer que lhe agradasse. Depois de uma experiência com a mescalina, ele se volta para os psicodélicos, sintetizando e experimentando vários deles; quando a companhia se vê tendo as patentes de várias drogas populares e o bota pra fora, Shulgin continuou sintetizando e experimentando (em si e em outros pessoas de um seleto grupo) centenas de outras substâncias. Ouvindo os relatos de outros pesquisadores, Shulgin se interessa pelo MDMA. É dele uma das descrições mais famosas da experiência do MDMA: Me sinto absolutamente limpo por dentro, e não há nada mais que pura euforia. Eu nunca havia me sentido tão bem, ou acreditado que isto fosse possível. A pureza, a claridade, e o maravilhoso sentimento de força interior permaneceram durante o resto do dia e da noite. Estou conquistado pela profundidade da experiência...

    E realmente ficou. Em 1977 deu um pouco do novo achado para um velho amigo seu, Leo Zeff, psicoterapeuta prestes a se aposentar. Dias depois Leo telefona, dizendo que mudou de idéia sobre a sua aposentadoria e, viajando através dos EUA, apresenta a droga a outros terapeutas, ensinando como usá-la nas suas terapias.

    Desde o início todos eles estavam bastante conscientes da poderosa ferramenta que tinham em mãos, e a difusão do uso de algo que eles chamavam de Adam, por remeter a um "estado de inocência original antes da culpa", continua. Mais cautelosos desta vez, porém, este círculo cuidou para que Adam não tivesse o mesmo fim que o LSD havia tido, banido como ilegal desde o início dos setenta.

    E por alguns anos tiveram êxito. Uma extensa literatura sobre o uso do MDMA como adjunto terapêutico relata os diversos usos da "penicilina para a alma": depressão, suicídio, fobias, estresse pós-traumático, problemas conjugais, abuso de drogas, e o sofrimento de doentes terminais. Por diferir, em muitos aspectos, dos alucinógenos (que também foram utilizados em psicoterapias), o MDMA foi encarado, por algum tempo, com indiferença pelo governo americano.

    Logo depois, porém, o MDMA foi descoberto pelo povo da rua, e em certos campi ele substituiu a cocaína como droga de escolha. Um distribuidor anônimo de Los Angeles batizou a nova droga de ecstasy, pois "ecstasy vende melhor do que chamá-la de 'empathy'. Este último seria mais apropriado, mas quanta gente sabe o que empatia significa?". Em 1983 um grupo situado no Texas começou a comercializar o MDMA, com o nome de "Sassyfras". Durante um par de anos, o seu uso era aberto, sendo distribuído normalmente na porta de bares e boates, vendido por telefone, ou até mesmo em lojas de conveniência, até que em 1985 o MDMA foi colocado na Schedule One pelo Controlled Substances Act.

    Schedule One é a categoria reservada para substâncias com nenhum fim médico, cuja produção deve ser constantemente supervisionada. Foi um processo longo e demorado, e muitos estudiosos colocam em dúvida a legitimidade desta classificação "apressada e desesperada". De um lado, estavam os relatos dos psicoterapeutas, clamando para que o uso terapêutico pudesse continuar, e do outro estavam os órgãos governamentais, clamando pelos efeitos nocivos ainda desconhecidos para a juventude americana. Estas audiências ocuparam um espaço significativo na mídia americana, o que deve ter atiçado a curiosidade de muitos, e o consumo de MDMA registrou um aumento considerável. Grande parte dos psicoterapeutas, temendo pela sua carreira e pelos seus clientes, abstiveram-se de usar uma substância ilegal; com a ilegalidade, assim, temos o nascimento do ecstasy como a "droga da balada" que conhecemos hoje, começando a sua carreira meteórica por nada menos que a Europa.

    Ibiza é uma ilha espanhola, conhecida por ser um resort turístico de belas praias, e com a fama de ter abrigado o nascimento do Acid House. Os anos oitenta foram profícuos em finais de semana onde milhares de pessoas divertiam-se com o haxixe, o ácido e o E; na volta pra casa, levaram a lembrança do verão e a nova droga consigo, espalhando-a pelo continente, até o Reino Unido. Na Inglaterra o MDMA encontra seu espaço, associado com a "cena" rave. Raves eram festas realizadas em galpões ou no aberto, muitas das vezes um lugar "secreto": nos convites e nos flyers havia somente um número de telefone a ser chamado, quando então era conhecido um lugar donde partiria uma "caravana" para o local da festa. A cultura agora chamada "clubber" nasce ali, marcada pelo pacifismo e pela tolerância.

    No Brasil, as raves chegam por volta do início dos noventa. Tinham um caráter de "festa de sítio", realizadas no meio do mato, com um público muito seleto. Com a popularização da música eletrônica, as raves começaram a ficar maiores e mais populares, chegando ao status que mantêm hoje. Milhares de pessoas conhecem o MDMA sem conhecer a longa e interessante trajetória do entactógeno mais abusado na história da humanidade.

    Por: Ítalo Verdelli

      Data/hora atual: Seg 16 Jul 2018, 22:32